O incipit: «-- Quem o diria, Berenice?...»
A Boca da Esfinge pertence ao grupo de livros que Ferreira de Castro eliminou da sua bibliografia, e o único escrito a quatro mãos. Tal como em O Mistério da Estrada de Sintra se sabe o que é de Ramalho Ortigão por exclusão de partes, de tal modo é vívido o estilo de Eça de Queirós, também aqui o cunho castriano é assaz detectável.
A Boca da Esfinge pertence ao grupo de livros que Ferreira de Castro eliminou da sua bibliografia, e o único escrito a quatro mãos. Tal como em O Mistério da Estrada de Sintra se sabe o que é de Ramalho Ortigão por exclusão de partes, de tal modo é vívido o estilo de Eça de Queirós, também aqui o cunho castriano é assaz detectável.
O primeiro capítulo, páginas 17 a 23, decorre num cais, certamente o de Lisboa, e a bordo de um navio transatlântico, por volta de 1920. As únicas personagens presentes são Mário de Albuquerque, homem de meia idade prestes a embarcar, rumo a um destino longínquo, e a sua amante, Berenice, de dezoito anos. A atmosfera é o de um transe de separação. Ela surge como um estereótipo de animal sensual: «E via-lhe o corpo alto: -- a quem a seda indiscretamente revelava as formas: -- via-lhe o cabelo vagamente louro: -- que num anseio de liberdade se desgrenhava revoltosamente sobre o rosto: -- aquele rosto em os olhos verdes: -- glaucamente verdes : -- e o nariz ligeiramente adunco, eram apenas um pretexto para salientar os lábios grossos, vermelhos e húmidos: -- uns lábios por detrás dos quais vivia, como num covil, um desejo insaciável.» ; ele como o de um torturado: «Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muito queridos.». É uma abertura desinteressante, muito marcada pelo romantismo da personagem masculina, toda atenta aos sinais, aos presságios, com um picante de erotismo: outrora, pela altura em que Berenice nascia, Mário frequentava também o leito da amante do pai, provocando um sério conflito entre ambos.
O estilo é alambicado, ao mau gosto magazinesco da época, muito longe da medida justa e viril de Emigrantes, aparecido quatro anos depois. Salvam-se umas descrições, em especial dos efeitos da luz, que viria a ser uma espécie de imagem de marca de Ferreira de Castro e uma perspectiva cinética, que virá a desenvolver em obras futuras . E o mais interessante é saber que, para o fim da narrativa surdirá uma espécie de jacquerie contemporânea, evocando aquela que encontramos também na parte final de Húmus, de Raul Brandão, que Castro lera com atenção e sobre a qual escrevera.
Excerto 1: «-- Há 18 anos! Eu estava no apogeu da mocidade: -- e vivia embriagado pelas estranhas teorias do Querer, do Desejar: -- o mundo cifrava-se para mim num grande museu onde era possível catalogar a alegria de todas as aspirações realizadas. E não podia supor que nesse tempo acabava de emergir, sobre a vaga enraivecida da vida, uma criança que havia de perturbar o outono da minha existência: -- esse outono que eu quisera languidamente apaziguado : -- para ver desprenderem-se e rolar para o Nada, as folhas murchas das minhas ilusões…»
Excerto 2: «Pouco a pouco, na lentidão da saída, aos olhos de Mário o cais ia tornando-se mais escuro e homens e mulheres volviam-se em miniaturas: -- pequena "marionetes" que agitavam, junto ao cenário do fundo, que representava uma cidade, uma multidão já confusa de lenços brancos.»
A Boca da Esfinge, de Eduardo Frias e Ferreira de Castro, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924.

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