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domingo, 17 de setembro de 2017
a novelística -- I: 4,6-5
13. Ferreira de Castro, A Experiência (1954) - 4,8
12. Ferreira de Castro, Eternidade (1933) - 4,7
11. Eça de Queirós, São Cristóvão (póstumo, 1911) - 4,8
10. Hélia Correia, Lillias Fraser (2001) -5
9. Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013) - 5
8. Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar (2013) - 5
7. Ferreira de Castro, A Tempestade (1940) - 4,6
6. Ferreira de Castro, A Missão (1954) - 5
5. Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947) - 5
4. João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988) - 5
3. Orlando da Costa, O Signo da Ira (1961) - 5
2. Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) - 5
1. Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) - 5
sexta-feira, 28 de abril de 2017
motu proprio: ANNO DOMINI 1348: recriação do passado em hoje
Estive directamente envolvido na (a)parição do Anno Domini 1348 (Prémio Ferreira de Castro / 1989), por razões profissionais. Há mais de vinte anos já...
Em três penadas, o que registei no fim desta esplêndida releitura:
Releio-o passado todo este tempo -- e que bem se porta o livro, que bem ele se aguenta! O que é ainda mais digno de registo, tendo esta sido a primeira obra de ficção publicada por Sérgio Luís de Carvalho, então um jovem medievalista sem nome na ficção, ao contrário do que hoje sucede.
Em três penadas, o que registei no fim desta esplêndida releitura:
1) A história social e mental medieval está presente sem que o historiador surja como um intruso no trabalho do ficcionista. A informação é-nos dada (com fidedignidade, acrescento) currente calamo, afastando a desagradável sensação de ter sido despejada no meio da acção, por didactismo ou excesso de especialização. Não há aqui outro imperativo que não seja o da boa economia narrativa.
2) O protagonista, João Lourenço, tabelião que realmente existiu em Sintra e foi vitimado pela Peste Negra, como o atesta a documentação da época (três fragmentos são publicados no final, em apêndice), passa a última semana de vida a redigir o testamento, pretexto para uma rememoração do tempo perdido: a infância, a aprendizagem do tabelionado, o amor, os acidentes em que a vida de todos nós é fértil. É uma personagem com densidade psicológica; interpela Deus, e nesse diálogo evidencia-se uma moderna (e propositadamente anacrónica) consciência de individualidade -- como será moderna a consciência da humanidade do Outro que se verifica em relação aos judeus. A propósito, o episódio da judiaria de Sintra é um dos momentos do livro, que nunca baixa o patamar elevado em que o autor soube colocar a narrativa.
3) Sendo um romance, no que respeita à bibliografia sintrense, Anno Domini 1348 é uma obra que nela fundamente se inscreve. Não é impunemente que se recria o passado de um modo tão contemporâneo.
Transcrevo parte da crítica de Daniel Bermond, na revista Lire de Novembro de 2003 (Le Bestiaire Inachevé, na tradução francesa), que encontrei no sítio do escritor: «Transparece destas páginas fortes uma gravidade que sustenta a graça de um língua que poderia se a adas orações e dos salmos. Uma pequena obra-prima de uma austeridade sumptuosa.»
Transcrevo parte da crítica de Daniel Bermond, na revista Lire de Novembro de 2003 (Le Bestiaire Inachevé, na tradução francesa), que encontrei no sítio do escritor: «Transparece destas páginas fortes uma gravidade que sustenta a graça de um língua que poderia se a adas orações e dos salmos. Uma pequena obra-prima de uma austeridade sumptuosa.»
A SELVA (1930): fogo e cinza, destruição e regeneração
O vento varre as cinzas dos escombros e limpa o terreiro para o que a seguir virá.
«--Me deixa sua peste! Me deixa já! Não foi por ti nem pelos outros como tu que perdi a minha alma e vou para o inferno! Foi porque seu Juca te fez escravo e aos outros safados que te acompanham. Se estivesse no tronco, como tu, o feitor que me batia lá no Maranhão, eu também matava a seu Juca. Negro é livre! O homem é livre!
[...]
-- Me mande matar, se quiser, branco. Eu já sou muito velho e não preciso de viver mais...» Cap. XV, 32ª ed., p.287. (18 de Julho de 2005)
A SELVA (1930): luta de classes e maniqueísmo
«"[...] E se Juca descobrisse? Se descobrisse que fora ele quem fornecera a lima?"
[...] "E se descobrisse?" Os nervos entumeceram-se-lhe numa súbita coragem. "Fizera muito bem! Fizera muito bem!" -- repetiu a si próprio. -- "Aqueles homens já não deviam nada. Há muito tempo que tinham pago, quatro ou cinco vezes mais do que o seu justo valor, tudo quanto haviam consumido. Era uma exploração em cadeia. A casa aviadora explorava Juca, ele, por sua vez, explorava os seringueiros, que eram, no fim, os únicos explorados. Mas Juca podia, ao menos, protestar, enquanto que aos seringueiros nem sequer isso seria permitido."» Cap. XV, 32ª ed., p. 263.(18 de Julho de 2005)
A REDENÇÃO DAS ÁGUAS (2013): solidão absoluta
Os últimos anos de D. João V, em deslocações regulares às Caldas da Rainha (de onde o autor é natural), para enfrentar um mal que o deixara semiparalizado, talvez um avc. Um bom pretexto para falar-se do lugar, a que se junta uma história de amor entre Pedro Fontes, escudeiro do infante D. Manuel, irmão mais novo do rei e Sara, uma filha ilegítima d'o Magnânimo -- o episódio mais eminentemente ficcional do livro, pois trata-se de romance histórico.
Neste aspecto, a pesquisa parece-me ter sido muito conseguida, não faltando o episódio de conspiração (ou alucinação visionária de um certo Pedro de Rates Henequim, personagem verídica, sentenciada pela Inquisição), que procurara fazer do infante D. Manuel um futuro imperador do Brasil, como forma de instaurar o V Império bandarro-vieirino.
O mais interessante da narrativa é a solidão do rei absoluto diante da doença e da aproximação da morte. Menos interessante, para mim, a história de amor, central, prejudicando, talvez, alguns aspectos que gostaria de ter visto mais desenvolvidos.
Carlos Querido, A Redenção das Águas, Lisboa, Arranha-céus, 2013 (11 de Junho de 2014)
motu proprio: A SELVA (1930): anarquismo: o social sobre o político
«Alberto não lhe dava atenção. Prendia-o a carta materna, com a notícia de que os republicanos haviam, enfim, resolvido amnistiar os insurrectos de Monsanto.
[...]
"Os republicanos... Os monárquicos..." Tudo aquilo lhe soava imprevistamente a oco, longínquo e sem sentido. Arrefecera-lhe a paixão, as suas antigas ideias pareciam-lhe de tempos remotos, dum outro eu que se perdera e esfumara na lonjura. Examinava agora, a sangue-frio, a sua causa vencida e nenhum ódio guardava para os adversários que combatera anos antes. [...] Cada vez sentia menos o domínio das teorias que o haviam forçado a emigrar e parecia-lhe mesmo que sobre elas se iam condensando, de modo ainda mal definido, uma razão diferente e um sentimento de justiça nova, mais profunda e mais vasta. "Em muitas das suas expressões, a vida rastejava ainda, em tanto mundo e ali mesmo, à altura dos pés humanos; e não era decerto com os velhos processos, já experimentados durante dezenas de séculos, que ela poderia ascender aos níveis que o cérebro entrevia. Não era, decerto, no que estava feito, era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio."»
Cap. XII, 32ª ed., pp. 225-226. (17 de Julho de 2005)
motu proprio: A SELVA (1930): selva metafórica e selva literal
«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir a pele de fera. [...]» Cap. V, 32ª ed., p. 106. (16 de Julho de 2005)
motu proprio: A SELVA (1930): o rebanho
Aportados a Manaus, numa escala, os futuros seringueiros são proibidos de desembarcar para uma simples visita à cidade pelo angariador de mão-de-obra, Balbino. O trecho abaixo, referente à atitude de Alberto em não acatar uma decisão autoritária, reflecte um espírito de insubmissão e rebeldia, além de desgosto pela passividade dos restantes trabalhadores.
«Ia a voltar-se para encarar quem punha dúvida na sua resolução, que era firme, mas logo se deteve numa atitude de orgulho juvenil. Tanto como aquele que cerceava a liberdade, indignava-o a alma submissa dos que acatavam, silenciosa e passivamente, a ordem iníqua. "iria! Iria custasse, o que custasse!» Cap. III, 32ª ed., pp. 64-65.
motu proprio: Eça e Camilo
A Capital! depois de Doze Casamentos Felizes, e ocorre-me: «Como seriam as vozes de Camilo e Eça? Como soariam?» Suponho a de Eça ligeiramente nasalada e aguda, como que a deixar-nos à-vontade -- talvez (passe o cliché naturalista) para melhor nos estudar. Quanto à de Camilo, sinto-a mais áspera e grave, a pôr-nos em guarda -- ela, que ao soltar-se já estaria de sobreaviso... (20 de Junho de 2015)
motu proprio: A SELVA (1930): da dignidade individual
O extremar de posições é-nos dado pelos preconceitos da personagem principal, Alberto, um estudante de Direito, monárquico insurrecto de Monsanto, e por isso exilado; e um conjunto de gente ignara, acomodada naquele «curral flutuante» e conduzida em pura inércia de sobrevivência, um pouco o que acontece com os rebanhos. Não por acaso as noções de fraternidade e bem-estar, palavras-chave das doutrinas de revolução social, aparecem ligadas neste contexto de animalização dos futuros seringueiros, contrário, por isso, à sua intrínseca dignidade de homens. Este conceito de dignidade, geral e individual, é fundamental em Ferreira de Castro.
«A sua epiderme contraía-se sob a força do asco que o convés imundo lhe causava. Sentia-se inadaptado, estranho ali, quase inimigo das vidas que o cercavam, aparentemente alheias a tudo quanto não fossem imposições do corpo e aderindo, resignadas, a todas as contigências.
Magoava-o a facilidade com que outros recrutados dormiam tranquilamente um sono que era, para o egoísmo dele, quase uma afronta.
E sorria, depreciativamente, ao pensar no apostolado da democracia, nos defensores da igualdade humana, que ele combatera e o haviam atirado para o exílio. «Retóricos perniciosos! Queria vê-los ali, ao seu lado, para lhes perguntar se era com aquela humanidade primária que pretendiam restaurar o mundo. Via-se o que tinham feito! Tudo na mesma, sempre a mesma violência, a demagogia até. E ainda havia os que queriam ir mais longe no desvario, destruindo fundo os caboucos sociais, desmoronando uma obra construída e cimentada pela velha experiência dos séculos. E para quê? Para quê? Possuíam alma essas gentes rudes e inexpressivas, que atravancavam o Mundo com a sua ignorância, que tiravam à vida colectiva a beleza e a elevação que ela podia ter? Se a possuíssem, se tivessem sensibilidade, não estariam adaptados como estavam àquele curral flutuante. Mas não. Mas não. Era o seu meio e, se as transplantassem, ficariam tímidas, desconfiadas e murchas, como bichos selvagens nos primeiros dias de jaula. Ele e os seus, declarados inimigos da igualdade, defensores de élites, eram bem mais amigos dessa pobre gente do que os outros, os que a ludibriavam com a ideia duma fraternidade e dum bem-estar que não lhe davam nem lhe podiam dar. Só as selecções e as castas, com direitos hereditários, tesouro das famílias privilegiadas, longamente evoluídas, poderiam levar o povo a um mais alto estádio. Mas tudo isso só se faria com autoridade inquebrantável -- um rei e os seus ministros a mandarem e todos os demais a obedecer. O resto era fantasia maléfica de sonhadores ou arruaceiros. (...)» (Cap. II, 32ª ed., pp. 46-47.) (15 de Julho de 2005)
motu proprio: Adolfo Casais Monteiro
Casais Monteiro, um poeta menor, foi um excelente ensaísta, dos melhores do seu tempo. Havia então uma querela entre a chamada literatura humanista, neo-realista, que tinha os mais estrénuos defensores em Mário Dionísio e Álvaro Cunhal e, doutra parte, aqueles que, acusados de «psicologismo», elitismo e até de desumanidade -- porque não punham os problemas materiais do homem na primeira, ou na segunda, linha das suas preocupações enquanto artistas -- gravitavam em torno da revista presença. A história veio dar razão a Casais, a Régio e a Gaspar Simões, directores da folha coimbrã, não porque o outro lado não tivesse autores de primeira água, que os tinha, simplesmente porque o que sobrevive hoje dessa literatura tem que ver com questões de todas as épocas: por um lado, o homem visto como um problema total, não só material mas também espiritual; por outro, os aspectos da técnica literária, principalmente narrativa, que uma boa parte dos escritores política e/ou socialmente empenhados dominavam muito bem. A querela aludida acima, se hoje (nos) é risível, causou então fortíssimas polémicas, interessantíssimas historicamente, mas que actualmente seriam, mais do que intoleráveis, ridículas... (5 de Junho de 2005)
motu proprio: A SELVA (1930): gente sem crónica (romance social e ética da escrita)
Do «Pórtico», 1ª edição de A Selva, de Ferreira de Castro (1930), as naturais referências aos seringueiros, «à gente sem crónica definitiva», objecto das preocupações sociais do autor. A conquista do pão é um dos mais conhecidos e importantes livros do príncipe Piotr Kropótkin, uma das grandes figuras da história do anarquismo, influência decisiva em Ferreira de Castro, sobre quem, de resto, projectou escrever uma biografia, nos anos 30, a pedido do poeta brasileiro Martins Fontes, um devoto do libertário brasileiro.
«Eu devia êste livro a essa Amazonia longínqua e enigmática, pelo muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. Livro bárbaro, como a vida que enquadra, como o scenário que lhe serve de fundo, êle completa em muitos pontos, à margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
Num, a paísagem ridente do sul do Brasil; noutro a paísagem magestosa do Norte. Em «Emigrantes», o exílio pelo estômago; neste, o destêrro pelo espírito. E nos dois, a uni-los indissoluvelmente, a luta pela vida, a conquista do pão, a miragem do oiro -- um oiro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam. (...)» (12 de Julho de 2007)
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