Estive directamente envolvido na (a)parição do
Anno Domini 1348 (Prémio Ferreira de Castro / 1989), por razões profissionais. Há mais de vinte anos já...
Releio-o passado todo este tempo -- e que bem se porta o livro, que bem ele se aguenta! O que é ainda mais digno de registo, tendo esta sido a primeira obra de ficção publicada por Sérgio Luís de Carvalho, então um jovem medievalista sem nome na ficção, ao contrário do que hoje sucede.
Em três penadas, o que registei no fim desta esplêndida releitura:
1) A história social e mental medieval está presente sem que o historiador surja como um intruso no trabalho do ficcionista. A informação é-nos dada (com fidedignidade, acrescento) currente calamo, afastando a desagradável sensação de ter sido despejada no meio da acção, por didactismo ou excesso de especialização. Não há aqui outro imperativo que não seja o da boa economia narrativa.
2) O protagonista, João Lourenço, tabelião que realmente existiu em Sintra e foi vitimado pela Peste Negra, como o atesta a documentação da época (três fragmentos são publicados no final, em apêndice), passa a última semana de vida a redigir o testamento, pretexto para uma rememoração do tempo perdido: a infância, a aprendizagem do tabelionado, o amor, os acidentes em que a vida de todos nós é fértil. É uma personagem com densidade psicológica; interpela Deus, e nesse diálogo evidencia-se uma moderna (e propositadamente anacrónica) consciência de individualidade -- como será moderna a consciência da humanidade do Outro que se verifica em relação aos judeus. A propósito, o episódio da judiaria de Sintra é um dos momentos do livro, que nunca baixa o patamar elevado em que o autor soube colocar a narrativa.
3) Sendo um romance, no que respeita à bibliografia sintrense,
Anno Domini 1348 é uma obra que nela fundamente se inscreve. Não é impunemente que se recria o passado de um modo tão contemporâneo.
Transcrevo parte da crítica de Daniel Bermond, na revista
Lire de Novembro de 2003 (
Le Bestiaire Inachevé, na tradução francesa), que encontrei no
sítio do escritor: «Transparece destas páginas fortes uma gravidade que sustenta a graça de um língua que poderia se a adas orações e dos salmos. Uma pequena obra-prima de uma austeridade sumptuosa.»