domingo, 11 de fevereiro de 2018

o início de ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES (1926). de Aquilino Ribeiro


Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava.» (s.ed., Lisboa, Livraria Betrand, 1979).

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

o início de ANA PAULA (1938), de Joaquim Paço d'Arcos

«Pela estrada plana, que, bordejando as baterias do campo entrincheirado, liga a fortaleza de S. Julião da Barra à estação de Oeiras, seguiam naquela tarde outonal de Novembro de 35 dois vultos que, a distância, semelhavam pela gentileza do garbo e interesse na conversação, par de noivos que, desejando-se solitário, houvesse buscado aquele caminho pouco frequentado para seu passeio e íntimas confissões.» (9.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1954)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Camilo, o romantismo e a nova escola realista (1879)

«Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de AlmeidaAmor de Perdição, «Prefácio da quinta edição», 1879. 

refracções

A tarde é chuvosa, ventosa e outonal, e «um certo viajante», pesadão e cansado de se arrastar pelos caminhos enlameados, vindo da aldeia do Montouro, entra em Corgos, onde é recebido por luz a condizer com o tempo que faz: 
«Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo  duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.» 
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953), cap. I; texto da 22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o início de AMOR DE PERDIÇÃO (1862), de Camilo Castelo Branco

 «Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» (Companhia Portuguesa Editora, Porto, 1917)

sábado, 27 de janeiro de 2018

o início de UMA ABELHA NA CHUVA (1953), de Carlos de Oliveira


«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado.» (22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O BARÃO DE LAVOS



Publicado em 1891, tem, naturalmente, uma abordagem datada da homossexualidade, entendida pelo modo naturalista da degenerescência biológica (consaguinidades e dissoluções várias) e comportamentos desviantes propiciados pelas obsolescências sociais (por exemplo, a educação ministrada em seminário jesuíta).
No entanto, para além do lugar-comum do preconceito e do estado da arte da sexologia, O Barão de Lavos é sem dúvida um notável exercício de perscrutação psicológica ensaiada na personagem D. Sebastião Pires de Castro e Noronha, o titular do romance.
Romance que tem um pouco d'O Primo Basílio, embora esteja simultaneamente aquém e para além dele. Para o pior e para o melhor, Abel Botelho não é Eça de Queirós: Militão compete com Acácio, mas não lhe ganha em estupidez; Doroteia emula Juliana, mas não lhe alcança a malignidade; Elvira, a baronesa, menos cândida que Luísa, por isso mais desce e melhor se safa.
Nada no Primo, porém , bate a execração atingida pelo Barão. E se a amizade em alto grau também está presente no romance queirosiano (Sebastião, amigo de Jorge), no romance de Botelho atinge um alto significado ético, nas figuras de Paradela e do Marquês de Torredeita, não faltando ao Barão de Lavos, mesmo quando este chafurda na maior abjecção.
Quanto ao estilo, apesar da pecha de escola naturalista da hiperdescrição, o livro não é daqueles em que o autor mais abusa e, em compensação, exibe passagens de grande beleza estilística e conceptual.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

sobre O QUE DIZ MOLERO




Grande literatura é isto:  domínio da palavra a benefício da narrativa, espessa, sumarenta, cheia de coisas a dizer e de indícios doutras que ficam por enunciar. Estórias e estorietas, há muito quem conte [...]; mas O que Diz Molero (1977) é a história, narrada de forma múltipla, dum escritor de obra escassa, sete títulos, três dos quais sob o pseudónimo Dennis McShade.

Li-o por volta de 1983 [...]. Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de 1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos, Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente, porque reflexo da vida e da vivência.  Não sei se algum vez um livro me deu tanto prazer a reler.

A verdade é que em que O que Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada, tão fundamental quanto o inventário da infância se presta  a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal. (repostagem)


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ALEXANDRA ALPHA: notas ao correr da leitura



* As mesmas limitações ou "defeitos" que Régio aponta a Eça: estilo impecável, humor opulento, ironia mortífera -- mas onde está a profundidade das personagens? Parecem títeres, quase todos.

* Muito agarrado á realidade sociológica concreta -- fim do estado Novo. Só Alexandra voa (e talvez Maria, a "mana"); o resto são bonecos, tipos sem profundidade. (Agora, que passo os alinhavos, talvez o velho tio Berlengas, talvez...).

* Parágrafos perfeitos (transe).

* Todo o capítulo do 25 de Abril (o VII) é prosa da mais pura, não me lembro de nada assim. É difícil escrever melhor sobre uma revolução. 


terça-feira, 14 de novembro de 2017

entre digestões e Salazar



Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

domingo, 12 de novembro de 2017

um país de mortos-vivos



Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

a filha do arcediago



O prefácio: uma técnica de promoção do livro que inteligentemente se desdenha a si própria, como se escrevesse: "não tomem o que escrevo pelo seu valor facial, que eu não sou bom de assoar; no entanto, se quiserem umas horas bem passadas na companhia duma intriga palpitante, então comprem o raio do livro!"
Este permanente jogo com o leitor sempre me fascinou no grande Camilo; artifício que depois se vai encontrar no não menor Machado de Assis, como escreve Paulo Franchetti, num excelente artigo lido aqui.
Um desavergonhado, no melhor sentido, o nosso autor (29 anos, em 1854), anunciando o seu romance com vozearia de feiras & mercados: «Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance que eu tenho a honra de oferecer às vossas horas de desenfado.»...
Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1977, p.5.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

a parte pelo todo



Começar. «Que viaje à roda dos seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se.» (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846],  cap. I, ed. cit., p . 9)


17 de Julho de 1843: o quarto não chega. «Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» (p. 9)


Paisagem: o vapor afasta-se.   «Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» (p. 10)

Vila Franca de Xira (outrora "da Restauração"): depoimento de um soldado liberal. «[...] Vila Franca a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal Restauração caiu, como todas as restaurações sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome. / -- A questão não era de restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.» (p. 10)

Do progresso (ou do optimismo). «Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...» (p. 11)


Prazeres. «No entretanto, vamos acender os nossos charutos [...] / [...] sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.» (p. 11)

Bairrismos: campinos e varinos. «Pois nós, que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes, que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?» (p. 13)