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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
domingo, 11 de fevereiro de 2018
o início de ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES (1926). de Aquilino Ribeiro
Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava.» (s.ed., Lisboa, Livraria Betrand, 1979).
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
o início de ANA PAULA (1938), de Joaquim Paço d'Arcos
«Pela estrada plana, que, bordejando as baterias do campo entrincheirado, liga a fortaleza de S. Julião da Barra à estação de Oeiras, seguiam naquela tarde outonal de Novembro de 35 dois vultos que, a distância, semelhavam pela gentileza do garbo e interesse na conversação, par de noivos que, desejando-se solitário, houvesse buscado aquele caminho pouco frequentado para seu passeio e íntimas confissões.» (9.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1954)
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Camilo, o romantismo e a nova escola realista (1879)
«Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida.» Amor de Perdição, «Prefácio da quinta edição», 1879.
refracções
A tarde é chuvosa, ventosa e outonal, e «um certo viajante», pesadão e cansado de se arrastar pelos caminhos enlameados, vindo da aldeia do Montouro, entra em Corgos, onde é recebido por luz a condizer com o tempo que faz:
«Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.»
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953), cap. I; texto da 22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
sábado, 27 de janeiro de 2018
o início de UMA ABELHA NA CHUVA (1953), de Carlos de Oliveira
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
O BARÃO DE LAVOS
No entanto, para além do lugar-comum do preconceito e do estado da arte da sexologia, O Barão de Lavos é sem dúvida um notável exercício de perscrutação psicológica ensaiada na personagem D. Sebastião Pires de Castro e Noronha, o titular do romance.
Romance que tem um pouco d'O Primo Basílio, embora esteja simultaneamente aquém e para além dele. Para o pior e para o melhor, Abel Botelho não é Eça de Queirós: Militão compete com Acácio, mas não lhe ganha em estupidez; Doroteia emula Juliana, mas não lhe alcança a malignidade; Elvira, a baronesa, menos cândida que Luísa, por isso mais desce e melhor se safa.
Nada no Primo, porém , bate a execração atingida pelo Barão. E se a amizade em alto grau também está presente no romance queirosiano (Sebastião, amigo de Jorge), no romance de Botelho atinge um alto significado ético, nas figuras de Paradela e do Marquês de Torredeita, não faltando ao Barão de Lavos, mesmo quando este chafurda na maior abjecção.
Quanto ao estilo, apesar da pecha de escola naturalista da hiperdescrição, o livro não é daqueles em que o autor mais abusa e, em compensação, exibe passagens de grande beleza estilística e conceptual.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
sobre O QUE DIZ MOLERO
Li-o por volta
de 1983 [...].
Por esse então, final da adolescência, apesar de muitas referências me
escaparem -- que não as da BD (Dinis Machado terá sido o único escritor
português a ter aposto numa obra literária os nomes de Zig e Puce...) ou as dos Westerns de John
Ford; é um livro cheio de cinema (até na prosa) e quadradinhos --, havia
também uma memória que me era familiar: o imaginário lisboeta das décadas de
1930-1940, que me foi transmitido pelo meu pai, da mesma geração do autor: as
figuras populares, suas alcunhas e seus maneirismos; a Guerra Civil de
Espanha e a II Guerra Mundial, o modo como eram ansiosamente seguidas e as
próprias implicações sociais e políticas desses dois cataclismos entre nós; o
cinema de Hollywood e os filmes em 31 partes do Flash Gordon; os comics americanos,
Dick Tracy e Mandrake, os combates de boxe... Referências pulp e
eruditas, de Camilo Pessanha a Jorge Luis Borges, fluindo naturalmente,
porque reflexo da vida e da vivência. Não sei se algum vez um livro
me deu tanto prazer a reler.
A verdade é
que em que O que
Diz Molero a prosa é rigorosamente vigiada e calibrada,
tão fundamental quanto o inventário da infância se
presta a todas as derrapagens do sentimentalismo : não há
lamechice, mas ternura, um humor terno e nunca boçal. (repostagem)
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
ALEXANDRA ALPHA: notas ao correr da leitura
* Muito agarrado á realidade sociológica concreta -- fim do estado Novo. Só Alexandra voa (e talvez Maria, a "mana"); o resto são bonecos, tipos sem profundidade. (Agora, que passo os alinhavos, talvez o velho tio Berlengas, talvez...).
* Parágrafos perfeitos (transe).
* Todo o capítulo do 25 de Abril (o VII) é prosa da mais pura, não me lembro de nada assim. É difícil escrever melhor sobre uma revolução.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
entre digestões e Salazar
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.
[repostagem]
domingo, 12 de novembro de 2017
um país de mortos-vivos
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.
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