«Em longos anos de rotina diária, meu pais afeiçoara-se de tal modo ao armazém de panos onde era o principal empregado, que ali fazia inúmeros serões, gozando raivosamente a ausência do patrão.»
«Já lá vão quase cinquenta anos, tempo suficiente para que um lago se torne num pântano ou uma estrela distante e misteriosa se transforme num mundo corriqueiro, ambos possíveis por obra dos homens.»
«De mansinho (estou a vê-lo!), abriu a porta da rua, subiu no escuro os três degraus da entrada onde o próprio mau cheiro lhe agradava, e apalpando à esquerda, meteu sem ruído a chave na fechadura.»
«Dum primeiro andar,com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas convidavam: -- Psiu! não sobes, ó catitinha? -- aos janotas que passavam.»
«Tarde de infinitabenignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão.»
«Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.»
«Se comparo oAmor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida.»«Prefácio da quinta edição», 1879.