terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A novelística - II: 4-4,5

26. Ângela Caires, Daqui em Diante Só Há Dragões (1988) -- 4,4
25. Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891) - 4,5
24. José Cardoso Pires, Alexandra Alpha (1987) - 4,3
23. M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - 4,0 
22. Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores (1980, póstumo) - 4,5
21. Diana de Liz, Memórias duma Mulher da Época (1932, póstumo) - 4,4
20. Raul Brandão, O Pobre de Pedir, (1931, póstumo) - 4,4
19. João Pedro de Andrade, A Hora Secreta (1942) - 4,3
18. Camilo Castelo Branco, O Judeu (1866) - 4,3
17. Manuel da Silva Ramos, Café Montalto (2002) - 4,5
16. Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993) - 4,4
15. Luís Almeida Martins, Viva Cartago (1984) - 4,1
14. Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938 [1925]) - 4,5
13. Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores (1974) - 4,5
12. Miguel Real, As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia (2010) - 4,0
11. Carlos de Oliveira, Alcateia (1944) - 4,4
10. Clara Pinto Correia, Adeus, Princesa (1985) - 4,5
9. António Pedro, Apenas uma Narrativa (1942) - 4,4
8. Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953) - 4,5
7. Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954) - 4,5
6. Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969) - 4,5
5. Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1942) - 4,5
4. Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902) - 4,3
3. Hélia Correia, O Número dos Vivos (1982) - 4,3
2. Romeu Correia, Calamento (1950) - 4,0
1. Paulo Castilho, Fora de Horas (1989) - 4,3


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

o início de AUTO DOS DANADOS (1985), de António Lobo Antunes

«Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.»
(11,ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"um halo de luz branca"

1. Carlos de Oliveira. «Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo  duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.» Uma Abelha na Chuva (1953)

"cómico pela seriedade antiga"


1. Camilo Castelo Branco, «Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida.» Amor de Perdição, «Prefácio da quinta edição», 1879.

da "sensibilidade do leitor"

1. Camilo Castelo Branco «Não seria fiar demasiado na sensibilidade do leitor, se cuido que o degredo de um moço de dezoito anos lhe há-de fazer dó.»  Amor de Perdição (1862)

domingo, 11 de fevereiro de 2018

o início de ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES (1926). de Aquilino Ribeiro

Rubicundo, pesadão de farto, o estômago bem lastrado com lombo de vinha-de-alhos, padre Jesuíno saiu a espairecer para a varanda que a aragem da serra brandamente refrescava.» (s.ed., Lisboa, Livraria Betrand, 1979).

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

o início de ANA PAULA (1938), de Joaquim Paço d'Arcos

«Pela estrada plana, que, bordejando as baterias do campo entrincheirado, liga a fortaleza de S. Julião da Barra à estação de Oeiras, seguiam naquela tarde outonal de Novembro de 35 dois vultos que, a distância, semelhavam pela gentileza do garbo e interesse na conversação, par de noivos que, desejando-se solitário, houvesse buscado aquele caminho pouco frequentado para seu passeio e íntimas confissões. Seguiam sem pressa, um pouco vergados pelas próprias figuras, olhando mais o piso da estrada do que os amplos horizontes à sua volta. Grave preocupação os prendia, diferente das que lhe atribuiria quem por noivos enleados erradamente os tomasse. Onde já iam na vida de uma os tempos de noivado, quando viriam na vida do outro que a seu lado caminhava, respeitoso, preso talvez do encanto daquele convívio, mas incapaz sequer de ousar exprimir essa prisão?!» (9.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1954)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Camilo, o romantismo e a nova escola realista (1879)

«Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de AlmeidaAmor de Perdição, «Prefácio da quinta edição», 1879. 

refracções

A tarde é chuvosa, ventosa e outonal, e «um certo viajante», pesadão e cansado de se arrastar pelos caminhos enlameados, vindo da aldeia do Montouro, entra em Corgos, onde é recebido por luz a condizer com o tempo que faz: 
«Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo  duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.» 
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953), cap. I; texto da 22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o início de AMOR DE PERDIÇÃO (1862), de Camilo Castelo Branco

 «Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» (Companhia Portuguesa Editora, Porto, 1917)

sábado, 27 de janeiro de 2018

o início de UMA ABELHA NA CHUVA (1953), de Carlos de Oliveira


«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado.» (22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

«Campaniça», de Manuel da Fonseca: cante da terra larga e ruim

     O arranque: «Valgato é terra ruim.»

     Conto inaugural de Aldeia Nova (1942), o primeiro livro de narrativas curtas de Manuel da Fonseca.  História de frustração colectiva no isolamento que o lugar de Valgato oferece aos seus habitantes: o horizonte intérmino da charneca, a vontade, raramente cumprida de desandar.

     Horizonte geográfico e horizonte existencial, pois a vastidão é como cárcere:
     «Aí está porque não é difícil um homem perder-se na charneca. É tão igual e monótona, rasa para todos os lados e para todos os lados deserta, que só o tino e, como diz o Venta Larga, o cheiro, são capazes de orientar. Para que serve ver? Anos e anos a olhar o descampado, os olhos cansaram-se de ver sempre o mesmo. A vista dos homens de Valgato é um sentido embotado. Há uma névoa cobrindo-a, mesmo de dia com o céu esbranquiçado e o lume do Sol tremendo no ar. E sem ver, ainda a manhã vem do outro lado do mundo, os homens, certinhos como a mula do Zé Tarrinha, andam léguas e léguas e vão dar às herdades. E de noite, sempre de noite, tornam para a aldeia, certos e direitos, com os olhos cegos do sono que volta. certos e direitos que um homem não precisa mais que saber onde põe os pés.»  
     Os autómatos da campina.

     Se a terra prende, a vida aprisiona. Que o diga a porqueira Maria Campaniça, desde nova sugestionada pela estória do Zé Gaio, partido sem regresso, e que antes de se juntar com o Baleizão, com ele alimentara a aspiração de deixar a terra, até à parição do rancho de filhos, que lhe matam o sonho:
     «Uma noite, Maria Campaniça sonhou que era velha e morria sem sair de Valgato. Foi e contou à mãe. O rosto encarquilhado da velha franziu-se ainda mais na sombra do lenço: 
     -- Que parvidade, moça! Então onde haveras de morrer?» 
     Soco no estômago.

     E daqui não há como expurgar a frustração, a inveja dos que abalaram e não mais se soube deles; ou daqueles seres humanos parecidos com os aldeãos mas extraterrestres, que surgem sem avisar e partem para destinos dificilmente suspeitados:
     «Uma tarde, já sem sol, quando os homens vindos da faina desciam das cristas dos cabeços, notaram que havia qualquer coisa de estranho em Valgato, Estugaram o passo. E perto olharam inquietos, poisando de leve as enxadas no chão. 
     Era uma forma de mulher com um vestido azul, colado, desenhando-lhe a carne. E tinha a boca vermelha e os olhos azuis e os cabelos loiros. Sorria. E andando oscilava as ancas torneadas, vivas, no vestido azul. E os seios tremiam a cada passo e levava os olhos de todos os homens de Valgato presos nos cabelos loiros, nas ancas e nos seios.
     Depois, viera um senhor, dono das terras do vale, e a mulher partiu com ele, num carro, pelo melhor dos caminhos que sai de Valgato e a léguas dali entra na estrada real.
     Os homens continuaram indecisos, com os olhos voltados para o cabeço por onde a mulher desaparecera. Só acordaram com as palavras da velha Carrasquinha. A velha dizia que aquilo fora uma aparição...
     -- ...Foi uma santa!
     Entrou em casa, tirou do fundo da arca uma estampa e voltou.
     -- Olhem se foi ou não foi!
     Todos olharam. Era uma Nossa Senhora vestida de azul, com os cabelos loiros abertos ao meio.
     Os homens ficaram mais tristes que nunca. E, nessa noite, cantaram tão desgraçados como os presos às grades de uma cadeia.»
     O desespero dos excluídos da alegria, espécie de bichos com sentimentos, gado que ia à mão fechada dos terratenentes, a vida em modo de cabra, que só liberta acabando.