quarta-feira, 24 de junho de 2020

3 fragmentos de A CALÇADA DA GLÓRIA (1947), do

«O andar, cuja morosidade provinha de infidelidades ao pedicuro, convertia-o ele numa altiva pachorra ao singrar entre mesas a caminho do seu cenáculo, como lanchão bojudo coleando no porto em demanda do cais.» A exautoração pelo ridículo (os calos apertados) e pelo caricatural (a comparação da figura de Antero Chumbo com uma lancha a serpear por embarcações maiores).

«Numa, noutra mesa, alguns íncolas, destes para os quais não há segredo na carcaça de nenhum frequentador do seu café, confidenciavam ao vê-lo entrar:» A caracterização da fauna calhandreira dos cafés como "íncolas".


«E dizia-o a rir, um risito de tenor contente, graduado com perícia para que nem o acreditassem nem o desmentissem.» A sugestão de efeminação -- Antero apregoando a sua condição de virgem --, obviamente demolidora em 1947, como nesses finais de 1920.
(do capítulo I, «Experiência -- Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, pp. 13-31)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

3 fragmentos de A BOCA DA ESFINGE (1924), de Eduardo Frias e Ferreira de Castro

1. «Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muitos queridos.» A repetição do advérbio de modo, muito comum em Ferreira de Castro neste primeiro período da sua vida literária, persistindo ocasionalmente depois.

2. «Berenice continuava silenciosa: -- quase abstracta: -- os olhos pousados sobre o largo cais: -- esse cais que o sol crepuscular ia empalidecendo: -- e onde uma multidão invejosa ou saudosa dos que partiam, aguardava que o vapor levantasse ferro.» A luz, sempre a luz; e uma alusão aos que ficam no cais, vendo os outros partir, com desenvolvimentos em Emigrantes, quatro anos mais tarde.

3. «E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha: -- miniatura de sino dobrando tristeza: -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Uma extraordinária comparação da campainha do criado no convés, avisando as pessoas para se separarem -- os que vão e os que ficam (por quanto tempo?...) -- com um dobre a finados.




(do capítulo I da 1.ª parte; Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, pp. 17-23)

domingo, 21 de junho de 2020

tiro ao alvo - A CALÇADA DA GLÓRIA (1947), de Tomás Ribeiro Colaço

Um romance português nunca publicado em Portugal. Um roman à clef em que não se esconde -- sem o nomear -- que o alvo é António Ferro, director do Secretariado da Propaganda Nacional, transmudado aqui em Antero Chumbo, o nome do protagonista. A forma como Colaço apanha a idiossincrasia literária de Ferro é caricatural, porém exacta, procurando também diminuir as vanguardas modernistas ou em especial as do chamado Primeiro Modernismo, anos 1910-1920.
Mostrar como Chumbo brinca com as palavras e as ideias acentua-lhe o carácter oportunista -- qualquer coisa como: "quem não respeita as palavras, ou as ideias, não é de confiança".

«Ali se lançara, para usar o francesismo que ele usou quando ao cabo de seis meses de Revista escreveu a sua Autobiografia de um Audacioso. Uma página inteira que terminava:
     Dizem para aí que foi a Castália [nome da revista] que me lançou. Que lançou a minha prosa. E a minha prosa é, realmente, uma lançada da Castália -- uma lançada no combate de Vida. Não recua, não trepida. Não sou eu que a lanço. Sobe em mim. Eu sou o seu lanço de escadas. Digam vocês todos o que quiserem. Ninguém me lança. Eu sou, em Lisboa, a minha lança em África.» 
Um humor muito queirosiano, contagiante e implacável; porém Colaço não é Eça, falta-lhe o génio.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A BOCA DA ESFINGE, de Eduardo Frias e Ferreira de Castro (1924)


O incipit: «-- Quem o diria, Berenice?...»
A Boca da Esfinge pertence ao grupo de livros que Ferreira de Castro eliminou da sua bibliografia, e o único escrito a quatro mãos. Tal como em O Mistério da Estrada de Sintra se sabe o que é de Ramalho Ortigão por exclusão de partes, de tal modo é vívido o estilo de Eça de Queirós, também aqui o cunho castriano é assaz detectável.
O primeiro capítulo, páginas 17 a 23, decorre num cais, certamente o de Lisboa, e a bordo de um navio transatlântico, por volta de 1920. As únicas personagens presentes são Mário de Albuquerque, homem de meia idade prestes a embarcar, rumo a um destino longínquo, e a sua amante, Berenice, de dezoito anos. A atmosfera é o de um transe de separação. Ela surge como um estereótipo de animal sensual: «E via-lhe o corpo alto: -- a quem a seda indiscretamente revelava as formas: -- via-lhe o cabelo vagamente louro: -- que num anseio de liberdade se desgrenhava revoltosamente sobre o rosto: -- aquele rosto em os olhos verdes: -- glaucamente verdes : -- e o nariz ligeiramente adunco, eram apenas um pretexto para salientar os lábios grossos, vermelhos e húmidos: -- uns lábios por detrás dos quais vivia, como num covil, um desejo insaciável.» ; ele como o de um torturado: «Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muito queridos.». É uma abertura desinteressante, muito marcada pelo romantismo da personagem masculina, toda atenta aos sinais, aos presságios, com um picante de erotismo: outrora, pela altura em que Berenice nascia, Mário frequentava também o leito da amante do pai, provocando um sério conflito entre ambos.
O estilo é alambicado, ao mau gosto magazinesco da época, muito longe da medida justa e viril de Emigrantes, aparecido quatro anos depois. Salvam-se umas descrições, em especial dos efeitos da luz, que viria a ser uma espécie de imagem de marca de Ferreira de Castro e uma perspectiva cinética, que virá a desenvolver em obras futuras . E o mais interessante é saber que, para o fim da narrativa surdirá uma espécie de jacquerie contemporânea, evocando aquela que encontramos também na parte final de Húmus, de Raul Brandão, que Castro lera com atenção e sobre a qual escrevera.

Excerto 1: «-- Há 18 anos! Eu estava no apogeu da mocidade:  -- e vivia embriagado pelas estranhas teorias do Querer, do Desejar: -- o mundo cifrava-se para mim num grande museu onde era possível catalogar a alegria de todas as aspirações realizadas. E não podia supor que nesse tempo acabava de emergir, sobre a vaga enraivecida da vida, uma criança que havia de perturbar o outono da minha existência: -- esse outono que eu quisera languidamente apaziguado : -- para ver desprenderem-se e rolar para o Nada, as folhas murchas das minhas ilusões…»


Excerto 2: «Pouco a pouco, na lentidão da saída, aos olhos de Mário o cais ia tornando-se mais escuro e homens e mulheres volviam-se em miniaturas: -- pequena "marionetes" que agitavam, junto ao cenário do fundo, que representava uma cidade, uma multidão já confusa de lenços brancos.»

A Boca da Esfinge, de Eduardo Frias e Ferreira de Castro, Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Camilo Castelo Branco, AMOR DE PERDIÇÃO (1862)

«Antes de entrar na avoenga liteira de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não haveria risco de ir dentro daquela antiguidade. »

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Coelho Neto, A CAPITAL FEDERAL (1893)

«De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa -- é algum jogador, que se recolhe despojado e trôpego, ou o santíssimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do pecado, que é uma chaga terrível que a gente cura com as drogas da filosofia ou com a boa e sadia campónia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraíso, por um caminho bem diferente desse que a igreja conspícua e autera manda que se trilhe -- ninguém mais.» A Capital Federal (1893)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Aquilino Ribeiro, A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES (1957)

«Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. »

sábado, 16 de novembro de 2019

primeiro parágrafo de A CAPITAL! (1925, póstumo), de Eça de Queirós

«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto.»

O tempo: seis horas. A informação aduzida, o silêncio, não chega para concluir a que parte do dia corresponde.
O espaço: estação de comboios de Ovar.
Impressões: Se o título remete para (um)a capital (com ponto de exclamação, desde a edição crítica), o início do romance numa estação de caminhos-de-ferro é uma forma expedita de dar o tom de partida; e se é de Ovar, clacula-se que o destino seja Lisboa. Outro parágrafos e capítulos terão de passar, até Artur Corvelo lá chegar.


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Valter Hugo Mãe, A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS (2010)

«achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.»


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Ferreira de Castro, A MISSÃO (1954)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera.»

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

primeiro parágrafo de A CALÇADA DA GLÓRIA (1947) de Tomás Ribeiro Colaço

«Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.»


Tempo: Não explícito. [a acção decorre na década de 1920]
Espaço: O narrador refere-se ao Café Martinho, em Lisboa; pode situar-se aí, ou não.
Personagem: referência a Antero Chumbo, figura central da narrativa, que parodia António Ferro.
Modo: o tom jocoso, próprio de uma sátira.
De notar que o autor, monárquico liberal, estava exilado no Brasil, onde se publicou A Calçada da Glória, um nítido ajuste de contas, a que a literatura, melhor ou pior (e muitas vezes pior) é sujeita.