sábado, 7 de outubro de 2017

A novelística portuguesa - II: 4-4,5

23. M. Teixeira-Gomes, Maria Adelaide (1938) - 4,0 
22. Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores (1980, póstumo) - 4,5
21. Diana de Liz, Memórias duma Mulher da Época (1932, póstumo) - 4,4
20. Raul Brandão, O Pobre de Pedir, (1931, póstumo) - 4,4
19. João Pedro de Andrade, A Hora Secreta (1942) - 4,3
18. Camilo Castelo Branco, O Judeu (1866) - 4,3
17. Manuel da Silva Ramos, Café Montalto (2002) - 4,5
16. Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993) - 4,4
15. Luís Almeida Martins, Viva Cartago (1984) - 4,1
14. Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938 [1925]) - 4,5
13. Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores (1974) - 4,5
12. Miguel Real, As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia (2010) - 4,0
11. Carlos de Oliveira, Alcateia (1944) - 4,4
10. Clara Pinto Correia, Adeus, Princesa (1985) - 4,5
9. António Pedro, Apenas uma Narrativa (1942) - 4,4
8. Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953) - 4,5
7. Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954) - 4,5
6. Nuno Bragança, A Noite e o Riso (1969) - 4,5
5. Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1942) - 4,5
4. Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902) - 4,3
3. Hélia Correia, O Número dos Vivos (1982) - 4,3
2. Romeu Correia, Calamento (1950) - 4,0
1. Paulo Castilho, Fora de Horas (1989) - 4,3


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

a filha do arcediago

O prefácio: uma técnica de promoção do livro que inteligentemente se desdenha a si própria, como se escrevesse: "não tomem o que escrevo pelo seu valor facial, que eu não sou bom de assoar; no entanto, se quiserem umas horas bem passadas na companhia duma intriga palpitante, então comprem o raio do livro!"
Este permanente jogo com o leitor sempre me fascinou no grande Camilo; artifício que depois se vai encontrar no não menor Machado de Assis, como escreve Paulo Franchetti, num excelente artigo lido aqui.
Um desavergonhado, no melhor sentido, o nosso autor (29 anos, em 1854), anunciando o seu romance com vozearia de feiras & mercados: «Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance que eu tenho a honra de oferecer às vossas horas de desenfado.»...
Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago (1854), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1977, p.5.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

a parte pelo todo

Começar. «Que viaje à roda dos seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se.» (Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846],  cap. I, ed. cit., p . 9)


17 de Julho de 1843: o quarto não chega. «Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» (p. 9)


Paisagem: o vapor afasta-se.   «Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» (p. 10)


Vila Franca de Xira (outrora "da Restauração"): depoimento de um soldado liberal. «[...] Vila Franca a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal Restauração caiu, como todas as restaurações sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome. / -- A questão não era de restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.» (p. 10)


Do progresso (ou do optimismo). «Este necessário e inevitável reviramento por que vai passando o mundo há-de levar muito tempo, há-de ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...» (p. 11)



Prazeres. «No entretanto, vamos acender os nossos charutos [...] / [...] sentir na face e nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da água, enquanto se aspiram molemente as narcóticas exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas coisas sinceramente boas que há neste mundo.» (p. 11)


Bairrismos: campinos e varinos. «Pois nós, que brigamos com o mar, oito e dez dias a fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes, que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais força?» (p. 13)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

retrato do artista quando menos jovem

Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se em figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846], Mem Martins, Publicações Europa-América, 1976, p. 9.

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.
 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

um estralejar de cometa

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!» O incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega a este ano de 2017.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

«Os visigodos»

 «A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p. 1).
Capítulo inicial, trata-se de um esquisso de enquadramento histórico (político e mental) da Ibéria, às vésperas da invasão muçulmano, tendo como epígrafe um passagem da Crónica do Monge de Silos, escrita no século XII: «A um tempo toda a raça goda, soltas as rédeas do governo, começou a inclinar o ânimo para a lascívia e soberba.». Pano de fundo sobre o qual se desenrolará acção romanesca, o seu mais curto parágrafo exibe o tom:
«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas  eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.» (p. 3).

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

História e ficção, mentira e verdade

Alexandre Herculano procurou nos romances históricos uma abordagem às mentalidades de época que não lhe dava uma heurística que relutava extravasar o dado documental. Debalde procurou suporte que lhe permitisse suprir essa lacuna na sua fundamental História de Portugal (1846-1853); e mesmo para as obras de ficção, a procura de vozes do passado que lhe transmitissem a dolorosa pena do celibato, cuja desumanidade desde a juventude o perturbava, resultou infrutífera, como assinala no prefácio do Eurico:
          «Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros, quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges acheia-as vazias.»  Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p.VI).

Fez, assim, apelo à idiossincrasia poética e ao escopo artístico, ciente de que o ficcionista de recursos tem a intuição que faltará ao historiador. A esta, junte-se a ideia supletiva do romancista como alguém que mede a temperatura do tempo, e por isso mais fidedigna a ficção do que obras contemporâneas, propositadamente concebidas para deixar um testemunho à posteridade. Podemos lê-lo num artigo da Panorama, cujo excerto magnífico foi transcrito por Vitorino Nemésio, na apresentação da edição crítica (1944):

«Novela ou História, qual destas duas cousas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas. Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. [...] Porque [os historiadores] recolhem e apuram monumentos que foram levantados ou exarados com o intuito de mentir à posteridade, enquanto a história da alma do homem deduzida lògicamente das suas acções incontestáveis não pode falhar, salvo se a natureza pudesse mentir e contradizer-se, como mentem e se contradizem os monumentos.» 
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

da solidão no meio dos anjos

A questão do celibato dos padres interessa o Herculano (1810-1877) romancista pelo drama que a Igreja, especialmente com o Concílio de Trento (1545-1563), impôs aos seus ministros: o sacrifício «da irremediável solidão da alma» -- assim o escreve na apresentação de Eurico, o Presbítero (1944).
No prefácio, o escritor deplora a misoginia subjacente àquele interdito, vendo a mulher como ideal salvífico e angelical de amor e bondade. O passagem seguinte dá bem a medida dessa idealidade  romântica, em contraste com uma sordidez máscula que macula muito de "nós" (é seu o recurso à englobante primeira pessoa do plural):

«Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afecto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelados nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E porque não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Porque não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra?»

Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], 40.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d., pp. IV-V.

domingo, 17 de setembro de 2017

a novelística portuguesa -- I: 4,6-5


13. Ferreira de Castro, A Experiência (1954) - 4,8
12. Ferreira de Castro, Eternidade (1933) - 4,7
11. Eça de Queirós, São Cristóvão (póstumo, 1911) - 4,8
10. Hélia Correia, Lillias Fraser (2001) -5
9. Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2013) - 5
8. Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar (2013) - 5
7. Ferreira de Castro, A Tempestade (1940) - 4,6
6. Ferreira de Castro, A Missão (1954) - 5
5. Ferreira de Castro, A Lã e a Neve (1947) - 5
4. João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988) - 5
3. Orlando da Costa, O Signo da Ira (1961) - 5
2. Ferreira de Castro, Emigrantes (1928) - 5
1. Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975) - 5

A novelística portuguesa -- III: 3-3,9

17. Fernando Assis Pacheco, Walt (1978) - 3,8
16. Rui Nunes, «Quem da Pátria Sai a Si Mesmo Escapa?» (1983) - 3,9
15. Nuno Júdice, O Enigma de Salomé (2007) - 3,7
14. Reinaldo Ferreira, Memórias Extraordinárias do Major Calafaia (póstumo, 1945) - 3,3
13. António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã (1988) - 3,0
12. José Saramago, Terra do Pecado (1947) - 3,5
11. Manuel da Silva Ramos, Três Vidas ao Espelho (2010) - 3,8
10. Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886) - 3,9
9. João Botelho da Silva, Beduínos a Gasóleo (1993) - 3,7
8. Fernando Faria, O Noviço (2015) - 3,4
7. Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959) - 3,8
6- Mário Domingues, O Preto do «Charleston» (1930) - 3,1
5- Antunes da Silva, Suão (1960) - 3,8
4- Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio (1914) - 3,1
3. Olga Gonçalves, A Floresta em Brermehaven (1975) - 3,7
2. Tomaz Ribas, Cais das Colunas (1959) - 3,0
1. Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012) - 3,7

a novelística portuguesa: - IV: 1-2,9


Generosos Delírios da Burguesia (Os) - Ampliar Imagem

14. Vasco Branco, Os Generosos Delírios da Burguesia (1980) - 2,7

13. Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014) - 2,7
12. Filomena Cabral, Em Demanda da Europa (1997) - 1,5
11. Mário Zambujal, Primeiro as Senhoras (2006) - 2,5
10. Carlos Querido, A Redenção das Águas (2013) - 2,7
9. Maria Manuel Viana, Teoria dos Limites (2014) - 2,7
8. António Alçada Baptista, O Riso de Deus (1994) - 1,2
7. Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição (1916) - 2,0
6. Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho (2008) - 1,5
5. Guedes de Amorim, Aldeia das Águias (1939) - 1,5
4. Sarah Beirão, Triunfo (s.d.) - 2,9
3- António Manuel Venda, O que Entra nos Livros (2007) - 2,5
2. Rosa Lobato de Faria, A Alma Trocada (2007) - 2,7
1. Bento da Cruz, Filhas de Loth (1967) - 2,9

sexta-feira, 28 de abril de 2017

ANNO DOMINI 1348: recriação do passado em hoje

Estive directamente envolvido na (a)parição do Anno Domini 1348 (Prémio Ferreira de Castro / 1989), por razões profissionais. Há mais de vinte anos já...
Releio-o passado todo este tempo -- e que bem se porta o livro, que bem ele se aguenta! O que é ainda mais digno de registo, tendo esta sido a primeira obra de ficção publicada por Sérgio Luís de Carvalho, então um jovem medievalista sem nome na ficção, ao contrário do que hoje sucede.

Em três penadas, o que registei no fim desta esplêndida releitura:
1) A história social e mental medieval está presente sem que o historiador surja como um intruso no trabalho do ficcionista. A informação é-nos dada (com fidedignidade, acrescento) currente calamo, afastando a desagradável sensação de ter sido despejada no meio da acção, por didactismo ou excesso de especialização. Não há aqui outro imperativo que não seja o da boa economia narrativa.
2)  O protagonista, João Lourenço, tabelião que realmente existiu em Sintra e foi vitimado pela Peste Negra, como o atesta a documentação da época (três fragmentos são publicados no final, em apêndice), passa a última semana de vida a redigir o testamento, pretexto para uma rememoração do tempo perdido: a infância, a aprendizagem do tabelionado, o amor, os acidentes em que a vida de todos nós é fértil.  É uma personagem com densidade psicológica; interpela Deus, e nesse diálogo evidencia-se uma moderna (e propositadamente anacrónica) consciência de individualidade -- como será moderna a consciência da humanidade do Outro que se verifica em relação aos judeus. A propósito, o episódio da judiaria de Sintra é um dos momentos do livro, que nunca baixa o patamar elevado em que o autor soube colocar a narrativa.
3) Sendo um romance, no que respeita à bibliografia sintrense, Anno Domini 1348 é uma obra que nela fundamente se inscreve. Não é impunemente que se recria o passado de um modo tão contemporâneo.

Transcrevo parte da crítica de Daniel Bermond, na revista Lire de Novembro de 2003 (Le Bestiaire Inachevé, na tradução francesa), que encontrei no sítio do escritor: «Transparece destas páginas fortes uma gravidade que sustenta a graça de um língua que poderia se a adas orações e dos salmos. Uma pequena obra-prima de uma austeridade sumptuosa.»

A SELVA (1930): fogo e cinza, destruição e regeneração


Última fala do negro Tiago, uma das personagens-chave de A Selva. Antigo escravo, velho coxo a quem os seringueiros tratavam por «Estica», de propósito para ouvi-lo praguejar dolorosamente, a todos proibia a alcunha excepto ao patrão, Juca Tristão, a quem tudo permitia, o que não impediu que o matasse. É Tiago quem lança fogo ao seringal após o aprisionamento de seringueiros fugitivos, de quem Alberto fora cúmplice na fuga, um deles o caboclo Firmino. Capturados por outros seringueiros -- episódio que suscita a Ferreira de Castro um extraordinário trecho --, são amarrados e açoitados no tronco, tal como sucedia, no tempo da escravatura, àqueles que eram apanhados. A passagem acima citada começa com a resposta a um dos seringueiros libertos pela acção de Tiago, um dos que lhe chamava «Estica» e queria agora, muito humanamente, agradecer-lhe o gesto . Um clic tinha-se produzido no velho e submisso Tiago, que se insurge da forma mais extrema. É esta insurreição, a destruição pelo fogo do algoz, que termina o calvário daqueles pobres diabos. A primeira leitura é óbvia: em situações extremas, justifica-se a eliminação do opressor. O que viria a seguir, Ferreira de Castro não nos diz, porque sabemos que a mesma exploração iria continuar, exercida por outrém sobre aqueles trabalhadores. A esperança reside num amanhã redentor, longínquo, mas que há-de vir. Em Novembro de 1929, o escritor terminava assim o seu romance: «O clarão perdia terreno: já não se via o bananal, apagavam-se ao longe os contornos da selva, o rio fundira-se na noite e os troncos cinzentos das palmeiras começavam a vestir-se de luto. Quando chegasse a manhã, derramando da sua inesgotável cornucópia a luz dos trópicos, haveria ali apenas um montão de cinzas, que o vento, em breve, dispersaria...» (Cap. XV, 1ª ed., p. 333)
O vento varre as cinzas dos escombros e limpa o terreiro para o que a seguir virá.

«--Me deixa sua peste! Me deixa já! Não foi por ti nem pelos outros como tu que perdi a minha alma e vou para o inferno! Foi porque seu Juca te fez escravo e aos outros safados que te acompanham. Se estivesse no tronco, como tu, o feitor que me batia lá no Maranhão, eu também matava a seu Juca. Negro é livre! O homem é livre!
[...]
-- Me mande matar, se quiser, branco. Eu já sou muito velho e não preciso de viver mais...» Cap. XV, 32ª ed., p.287. (18 de Julho de 2005)