domingo, 12 de janeiro de 2020

Camilo Castelo Branco, AMOR DE PERDIÇÃO (1862)

«Antes de entrar na avoenga liteira de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se não haveria risco de ir dentro daquela antiguidade. »

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Coelho Neto, A CAPITAL FEDERAL (1893)

«De longe em longe, uma luzinha treme, traçando no pó soalheiro dos caminhos uma risca luminosa -- é algum jogador, que se recolhe despojado e trôpego, ou o santíssimo padre Coriolano, que anda a correr o aprisco, a ver se alguma ovelha bale, roída pelo arrependimento do pecado, que é uma chaga terrível que a gente cura com as drogas da filosofia ou com a boa e sadia campónia, que, mais do que os santos, sabe levar os seus eleitos ao Paraíso, por um caminho bem diferente desse que a igreja conspícua e autera manda que se trilhe -- ninguém mais.» A Capital Federal (1893)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Aquilino Ribeiro, A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES (1957)

«Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. »

sábado, 16 de novembro de 2019

primeiro parágrafo de A CAPITAL! (1925, póstumo), de Eça de Queirós

«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto.»

O tempo: seis horas. A informação aduzida, o silêncio, não chega para concluir a que parte do dia corresponde.
O espaço: estação de comboios de Ovar.
Impressões: Se o título remete para (um)a capital (com ponto de exclamação, desde a edição crítica), o início do romance numa estação de caminhos-de-ferro é uma forma expedita de dar o tom de partida; e se é de Ovar, clacula-se que o destino seja Lisboa.  


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Valter Hugo Mãe, A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS (2010)

«achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.»


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Ferreira de Castro, A MISSÃO (1954)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera.»

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

primeiro parágrafo de A CALÇADA DA GLÓRIA (1947) de Tomás Ribeiro Colaço

«Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.»



Tempo: Não explícito. [a acção decorre na década de 1920]
Espaço: O narrador refere-se ao Café Martinho, em Lisboa; pode situar-se aí, ou não.
Personagem: referência a Antero Chumbo, figura central da narrativa, que parodia António Ferro.
Modo: o tom jocoso, próprio de uma sátira.
De notar que o autor, monárquico liberal, estava exilado no Brasil, onde se publicou A Calçada da Glória, um nítido ajuste de contas, a que a literatura, melhor ou pior (e muitas vezes pior) é sujeita.

domingo, 13 de outubro de 2019

primeiro parágrafo de UMA ABELHA NA CHUVA (1953), de Carlos de Oliveira

«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido.»


O tempo: Uma tarde de Outubro, invernosa, já no último terço: 17 horas.
O espaço: A entrada duma vila de província, Montouro, término de um percurso pedestre entabulado desde uma aldeia dos arredores, Corgos.
Personagem: Homem provavelmente de meia idade, pela descrição da indumentária de extracção burguesa. A urgência e gravidade do que tem a tratar acentuam o carácter grotesco que, expectavelmente, à partida não teria.
Impressões: Lama, chuva, barrancos em tarde invernosa reforçam a penosidade por que passa a personagem.
O modo: Uma caracterização física muito pormenorizada logo de início, um pouco inesperada para mim.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Ferreira de Castro, A LÃ E A NEVE (1947)

«A luz parecia desprender-se, como um véu, da imensurável cavidade, deixando ainda vermelhar a telha francesa das casas abastadas, enquanto os negros telhados dos pobres se somavam já à escuridão que avançava.» 

terça-feira, 8 de outubro de 2019

José Saramago, A JANGADA DE PEDRA (1986)

«Mas não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilómetros de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos lembraremos mais tarde, bastou que a mulher Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para que todos os cães de além saíssem vociferantes, eles que, repete-se, nunca tinham ladrado.» 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019