cronologia dos autores

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domingo, 21 de março de 2021

Carlos de Oliveira: UMA ABELHA NA CHUVA (1953)

A tarde é chuvosa, ventosa e outonal, e «um certo viajante», pesadão e cansado de se arrastar pelos caminhos enlameados, vindo da aldeia do Montouro, entra em Corgos, onde é recebido por luz a condizer com o tempo que faz: 
«Havia sobre a vila, ao redor de todo o horizonte, um halo de luz branca que parecia o rebordo  duma grande concha escurecendo gradualmente para o centro até se condensar num côncavo alto e tempestuoso. O vento ia descoalhando as nuvens e abria caminho à grossa chuvada que a tarde esperava.» 
Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva (1953), cap. I; texto da 22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984

domingo, 13 de outubro de 2019

primeiro parágrafo de UMA ABELHA NA CHUVA (1953), de Carlos de Oliveira

«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado. Tinha o seu quê de invulgar: o peso do tronco roliço arqueava-lhe as pernas, fazia-o bambolear como os patos: dava a impressão de aluir a cada passo. A respiração alterosa dificultava-lhe a marcha. Mesmo assim, galgara duas léguas de barrancos, lama, invernia. Grave assunto o trouxera decerto, penando nos atalhos gandareses, por aquele tempo desabrido.»


O tempo: Uma tarde de Outubro, invernosa, já no último terço: 17 horas.
O espaço: A entrada duma vila de província, Montouro, término de um percurso pedestre entabulado desde uma aldeia dos arredores, Corgos.
Personagem: Homem provavelmente de meia idade, pela descrição da indumentária de extracção burguesa. A urgência e gravidade do que tem a tratar acentuam o carácter grotesco que, expectavelmente, à partida não teria.
Impressões: Lama, chuva, barrancos em tarde invernosa reforçam a penosidade por que passa a personagem.
O modo: Uma caracterização física muito pormenorizada logo de início, um pouco inesperada para mim.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Carlos de Oliveira, UMA ABELHA NA CHUVA (1953)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.»

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Carlos de Oliveira, UMA ABELHA NA CHUVA (1953)

«O escritório do Medeiros, director da Comarca, era escuro e desconfortável; uma vulgar secretária de pinho, dois ou três cadeirões com almofadas de palha, um quebra-luz de missanga na lâmpada do tecto e montes de jornais aos cantos; cheirava a pó como num caminho de estio.» 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Carlos de Oliveira, UMA ABELHA NA CHUVA (1953)

«Atravessou de novo a praça, batendo pausadamente o tacão das botas, deixando cair os últimos pingos de lama, e dirigiu-se à redacção da Comarca de Corgos, sempre no mesmo passo oscilante e pesado, como se o levasse a custo o vento que arrastava no chão as folhas quase podres dos plátanos.»