cronologia dos autores

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

VIAGENS NA MINHA TERRA (1846): o desgosto burguês e a pureza do povo

«Assim o povo, que tem sempre melhor gosto e mais puro do que essa escuma descorada que anda ao de cima das populações, e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A um lado, a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo; do outro, a frescura das hortas e a sombra das árvores, palácios, mosteiros, sítios consagrados todos a recordações grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E ainda assim, Belém é mais árido.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

Desgosto por desagrado e por estética também. O povo é são, a burguesia (e quem a apoiar) é escumalha. O povo não está degradado, a burguesia (e quem a apoiar) é degradada por natureza: veja-se o sentido de harmonia desse mesmo povo, sobre quem as excelências cavalgam ou pisam.

É bonito? É... É falso? É pelo menos forçado; mas em estética tudo se permite.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

«Eurico o Presbítero» - 6. elegias


Continuar: «Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e trémulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tétrica.»

Prostrado com a decadência goda, o império do interesse próprio em vez do bem-comum, este breve capítulo tem por epígrafe uma frase do Memorial dos Santos, de Santo Eulógio de Córdova: «Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?», e evoca a glória de Teodorico I, rei dos visigodos, morto na própria batalha em que é derrotado "o flagelo de Deus", Átila o Huno  (541). Eurico escreve solitário no presbitério numa «meia-noite dos idos de Dezembro da era de 748» -- data de acordo ainda com a era de César (entre nós vigorou até ao reinado de D. João I) --, trinta e oito anos somados à actual era de Cristo. Fazendo a conversão, está-se pois no fim do ano de 710, que precederá a invasão muçulmana, cuja presença vigorará na Península Ibérica durante os setecentos anos a seguir.

Desgostoso da humanidade, Eurico remete-se ao convívio com a Natureza, expressão da criação divina: «Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar: / Porque o vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da terra quando ainda ela se chamava o caos. / Depois é que surgiu o homem e a podridão, a árvore e o verme, a bonina e o emurchecer. / E o vento e o mar viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera; -- e passaram, e sorriram-se.»

Tudo é vão ante a criação. Mas, como que adivinhando o desastre próximo, Eurico consola-se na certeza da Piedade, irmã da Esperança, aquela que «nunca morre nos céus.»

 cap. IV, «Recordações», pp. 21-30


 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Ferreira de Castro, EMIGRANTES (1928)



«Quando, porém, o outeiro, em curva suave de ventre feminino, se cosia ao sinuoso caminho que dava acesso à aldeia, deteve-se, meditativo, a contemplar a sua casita, quase debruçada no Caima.» 

sábado, 3 de novembro de 2018

conferência: Ferreira de Castro, CANÇÕES DA CÓRSEGA (1936)



«Se espraiávamos os olhos em redor, para cima, para baixo, para a direita e para a esquerda, tudo era branco e tudo nos dava uma sensação de soledade imensa.»

sábado, 15 de setembro de 2018

curtas: Ferreira de Castro





«E a selva densa, onde bandos de faunos gargalhavam nas tardes tropicais, dir-se-ia, no silêncio matinal, suspensa numa expectativa: -- paralisada por uma interrogação milenária.» Carne Faminta (1922)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Eça de Queirós, S. CRISTÓVÃO (póstumo, 1911)

«E a noite cerrava-se, quando para além de uma ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento Agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do Castelo andava erguendo a S. Cosme.»   

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Júlio Dinis, A MORGADINHA DOS CANAVIAIS (1868)

«Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.» 

domingo, 1 de julho de 2018

Ferreira de Castro, A LÃ E A NEVE (1947)




«Com suas altivas lombas, as ramificações da montanha cercavam, de todas as bandas, a vila postada quase no fundo do grande vale, ao pé do Zêzere, que na paz crepuscular adquiria voz forte, correndo e cantando entre os penedais do seu leito.»

segunda-feira, 28 de maio de 2018

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Júlio Dinis, A MORGADINHA DOS CANAVIAIS (1868)



«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.» 

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Aquilino Ribeiro, ANDAM FAUNOS PELOS BOSQUES (1926)




«Tarde de infinita benignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão.» 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Manuel da Fonseca, «Campaniça»


«Anos e anos a olhar o descampado, os olhos cansaram-se de ver sempre o mesmo. A vista dos homens de Valgato é um sentido embotado. Há uma névoa cobrindo-a, mesmo de dia com o céu esbranquiçado e o lume do Sol tremendo no ar. E sem ver, ainda a manhã vem do outro lado do mundo, os homens, certinhos como a mula do Zé Tarrinha, andam léguas e léguas e vão dar às herdades. E de noite, sempre de noite, tornam para a aldeia, certos e direitos, com os olhos cegos do sono que volta. »  Aldeia Nova (1942)