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domingo, 21 de março de 2021

A SELVA (1930): luta de classes e maniqueísmo



A passagem em itálico não consta da edição inicial. Embora uma certa crítica tivesse papagueado que nos livros de Ferreira de Castro não havia luta de classes, entre outros disparates, Castro terá achado por bem, em edições posteriores, explicitar melhor a natureza das relações económicas do circuito trabalhador-patrão-intermediário. Daqui resulta algum aligeirar do peso da carga predatória do patrão, dado, apesar de tudo como uma peça da engrenagem. Não por acaso. Em Castro é difícil encontrar maniqueísmo. No capítulo anterior, a propósito do famigerado Juca Tristão, concede-lhe um natural estatuto de humanidade, com as suas claridades e as suas sombras: «Era certos que os homens são bons ou maus conforme a posição em que se encontram perante nós e nós perante eles; e falso o indivíduo-bloco, o indivíduo sem nenhum contradição, sempre, sempre igual no seu procedimento.» (Cap. XIV, 32ª ed., pp. 258-259). Esta posição, que é explorada noutros romances, como A Lã e a Neve (1947), faz com que a visão do mundo dada por Ferreira de Castro através dos seus livros fuja ao esquematismo dogmático, intolerante, prisioneiro de uma doutrina determinada e, por conseguinte, não-livre.


«"[...] E se Juca descobrisse? Se descobrisse que fora ele quem fornecera a lima?"

[...] "E se descobrisse?" Os nervos entumeceram-se-lhe numa súbita coragem. "Fizera muito bem! Fizera muito bem!" -- repetiu a si próprio. -- "Aqueles homens já não deviam nada. Há muito tempo que tinham pago, quatro ou cinco vezes mais do que o seu justo valor, tudo quanto haviam consumido. Era uma exploração em cadeia. A casa aviadora explorava Juca, ele, por sua vez, explorava os seringueiros, que eram, no fim, os únicos explorados. Mas Juca podia, ao menos, protestar, enquanto que aos seringueiros nem sequer isso seria permitido."» Cap. XV, 32ª ed., p. 263.(18 de Julho de 2005)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Ferreira de Castro, A LÃ E A NEVE (1947)

«A luz parecia desprender-se, como um véu, da imensurável cavidade, deixando ainda vermelhar a telha francesa das casas abastadas, enquanto os negros telhados dos pobres se somavam já à escuridão que avançava.» 

domingo, 1 de julho de 2018

Ferreira de Castro, A LÃ E A NEVE (1947)




«Com suas altivas lombas, as ramificações da montanha cercavam, de todas as bandas, a vila postada quase no fundo do grande vale, ao pé do Zêzere, que na paz crepuscular adquiria voz forte, correndo e cantando entre os penedais do seu leito.»

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Ferreira de Castro, A LÃ E A NEVE (1947)




«Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida.»