cronologia dos autores

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domingo, 21 de março de 2021

Abel Botelho, O BARÃO DE LAVOS (1891)



Publicado em 1891, tem, naturalmente, uma abordagem datada da homossexualidade, entendida pelo modo naturalista da degenerescência biológica (consaguinidades e dissoluções várias) e comportamentos desviantes propiciados pelas obsolescências sociais (por exemplo, a educação ministrada em seminário jesuíta).
No entanto, para além do lugar-comum do preconceito e do estado da arte da sexologia, O Barão de Lavos é sem dúvida um notável exercício de perscrutação psicológica ensaiada na personagem D. Sebastião Pires de Castro e Noronha, o titular do romance.
Romance que tem um pouco d'O Primo Basílio, embora esteja simultaneamente aquém e para além dele. Para o pior e para o melhor, Abel Botelho não é Eça de Queirós: Militão compete com Acácio, mas não lhe ganha em estupidez; Doroteia emula Juliana, mas não lhe alcança a malignidade; Elvira, a baronesa, menos cândida que Luísa, por isso mais desce e melhor se safa.
Nada no Primo, porém , bate a execração atingida pelo Barão. E se a amizade em alto grau também está presente no romance queirosiano (Sebastião, amigo de Jorge), no romance de Botelho atinge um alto significado ético, nas figuras de Paradela e do Marquês de Torredeita, não faltando ao Barão de Lavos, mesmo quando este chafurda na maior abjecção.
Quanto ao estilo, apesar da pecha de escola naturalista da hiperdescrição, o livro não é daqueles em que o autor mais abusa e, em compensação, exibe passagens de grande beleza estilística e conceptual.


Eça e Camilo



A Capital! depois de Doze Casamentos Felizes, e ocorre-me: «Como seriam as vozes de Camilo e Eça? Como soariam?» Suponho a de Eça ligeiramente nasalada e aguda, como que a deixar-nos à-vontade -- talvez (passe o cliché naturalista) para melhor nos estudar. Quanto à de Camilo, sinto-a mais áspera e grave, a pôr-nos em guarda -- ela, que ao soltar-se já estaria de sobreaviso... (20 de Junho de 2015)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

o desejo


Eduardo Viana, Nu (1925)

Eça de Queirós - «Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.» O Primo Basílio (1878)

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A BOCA DA ESFINGE, de Eduardo Frias e Ferreira de Castro (1924)


A Boca da Esfinge pertence ao grupo de livros que Ferreira de Castro eliminou da sua bibliografia, e o único escrito a quatro mãos. Foi publicado em Lisboa pela editora Aillaud e Bertand, em 1924.
Tal como em O Mistério da Estrada de Sintra se sabe o que é de Ramalho Ortigão por exclusão de partes, de tal modo é vívido o estilo de Eça de Queirós, também aqui o cunho castriano é assaz detectável.
Incipit e primeiro parágrafo.  «-- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões…»

Nem tempo nem espaço; apenas um discurso directo dirigido a uma personagem feminina, bastante mais nova. Entre ambos poderá haver uma relação amorosa, ou outra. Nome especioso, muito década de 1920 do século passado, anos loucos.
Apesar da co-autoria, não é difícil atribuir este parágrafo ao futuro grande romancista: a pontuação pouco convencional que Ferreira de Castro usava então, bem como o gosto magazinesco pelo nome incomum.
O primeiro capítulo, páginas 17 a 23, decorre num cais, certamente o de Lisboa, e a bordo de um navio transatlântico, por volta de 1920. As únicas personagens presentes são Mário de Albuquerque, homem de meia idade prestes a embarcar, rumo a um destino longínquo, e a sua amante, Berenice, de dezoito anos. A atmosfera é a de um transe de separação. Berenice surge como um estereótipo de animal sensual: «E via-lhe o corpo alto : -- a quem a seda indiscretamente revelava as formas : -- via-lhe o cabelo vagamente louro : -- que num anseio de liberdade se desgrenhava revoltosamente sobre o rosto : -- aquele rosto em os olhos verdes: -- glaucamente verdes : -- e o nariz ligeiramente adunco, eram apenas um pretexto para salientar os lábios grossos, vermelhos e húmidos : -- uns lábios por detrás dos quais vivia, como num covil, um desejo insaciável.» ; Mário, como um torturado: «Ele falava lentamente, tristemente, como se falasse de mortos muito queridos.»  A repetição do advérbio de modo é também muito comum em Ferreira de Castro neste primeiro período da sua vida literária, persistindo ocasionalmente em livros posteriores. Trata-se duma abertura desinteressante, muito marcada pelo romantismo da personagem masculina, toda atenta aos sinais, aos presságios, com um picante de devassidão: outrora, pela altura do nascimento de Berenice, Mário frequentava também o leito da amante do pai, provocando um sério conflito entre ambos.
Refracções - «Berenice continuava silenciosa : -- quase abstracta : -- os olhos pousados sobre o largo cais : -- esse cais que o sol crepuscular ia empalidecendo : -- e onde uma multidão invejosa ou saudosa dos que partiam, aguardava que o vapor levantasse ferro.» A luz, sempre a luz. E também uma alusão aos que ficam no cais, vendo os outros partir, com desenvolvimentos em Emigrantes, quatro anos mais tarde.
 Desinquietações: «E como a corroborar as últimas palavras da mulher, um criado passou pelo convés agitando uma grande campainha : -- miniatura de sino dobrando tristeza : -- avisando aos estranhos que estavam a bordo, que deviam abandonar o navio, porque este ia partir.» Uma extraordinária comparação da campainha do criado no convés, avisando as pessoas para se separarem -- os que vão e os que ficam (por quanto tempo?...) -- como um dobre a finados.

O estilo é alambicado, ao mau gosto magazinesco da época, muito longe da medida justa e viril de Emigrantes, aparecido quatro anos depois. Tanto postiço lembra, por vezes o Mário de Sá-Carneiro de A Confissão de Lúcio, insuportável. Salvam-se umas descrições, em especial dos efeitos da luz, que viria a ser uma espécie de imagem de marca de Ferreira de Castro e uma perspectiva cinética, que virá a desenvolver em obras futuras. E o mais interessante é saber que, para o fim da narrativa surdirá uma espécie de jacquerie contemporânea, evocando aquela que encontramos também na parte final de Húmus, de Raul Brandão, que Castro lera com atenção e sobre a qual escrevera.
Por vezes, umas figuras de estilo inesperadas: «Em baixo : -- no portaló : -- os marinheiros recolhiam a prancha : -- que acabou por desaparecer no flanco do vapor : -- como uma grande língua entre dois lábios negros.»
Dá vontade de continuar? Dá. Menos pela narrativa em si, como pelo facto de tratar-se de um outro Ferreira de Castro, menos consistente, embora as ideias sejam essencialmente as mesmas que depois veiculou nos livros da maturidade

quinta-feira, 2 de julho de 2020

3 fragmentos de A CAPITAL!, de Eça de Queirós (póst., 1925)



«A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletot cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu de manhã chovera; mas a tarde ia caindo clara, e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos -- que o rapaz magro, comparava às flechas ricamente dispostas num troféu luminoso.»


Artur Corvelo, o protagonista, que não sabemos ainda tratar-se de um arrivista, mas cuja melancolia do olhar e a brancura, dir-se-ia anémica da face, não anuncia nada de bom -- se atendermos às personagens queirosianas --, aguarda o padrinho na estação ferroviária de Ovar. O descritivo da luz e da cor, notoriamente naturalista, e o efeito que a paisagem provoca em Artur, denota uma sensibilidade estética -- quanto a mim mais do narrador que da personagem.


«Na estação havia apenas um passageiro, esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão e ao lado sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro duma garrafa.»
Um quadro realista de pura observação, um retrato dos simples,


«O rapaz magro esteve um momento raspando o chão com a bengala -- e foi andando devagar ao comprido da plataforma. Reparara agora no rapaz do campo, que supunha ia a Lisboa embarcar para o Brasil; e, sensibilizado pela face tão desolada da velha, ia pensando que o Emigrante seria um motivo tocante de poesia social: daria quadros de cor rica -- os vastos azuis do mar contemplados, as noites saudosas, longe, numa fazenda do Brasil, quando, quando a lua é muito clara e os engenhos estão calados; e aqui, no casebre da aldeia, os pais chorando à lareira e esperando os correios… Entrevia mesmo os primeiros versos:
Ei-lo que deixa o lar, a mãe chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho…»
A burguesia provincial observa o povo; e apesar de o jovem emigrante ser uma das poucas personagens -- melhor se diria figurante, entrando daqui a pouco em discurso directo bem talhado --, das muito raras que não é motivo de irrisão, que não é caricatural, não podemos deixar de ver aqui um ligeiro esticar de lábios, não pelo emigrante mas pelo Curvelo. Era superior a si e também nisso era superior.

Eça de Queirós, A Capital! (c. 1878, póst., 1925) - edição crítica por Luiz Fagundes Duarte


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

sábado, 16 de novembro de 2019

primeiro parágrafo de A CAPITAL! (1925, póstumo), de Eça de Queirós

«A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas, antes da chegada do comboio do Porto.»

O tempo: seis horas. A informação aduzida, o silêncio, não chega para concluir a que parte do dia corresponde.
O espaço: estação de comboios de Ovar.
Impressões: Se o título remete para (um)a capital (com ponto de exclamação, desde a edição crítica), o início do romance numa estação de caminhos-de-ferro é uma forma expedita de dar o tom de partida; e se é de Ovar, clacula-se que o destino seja Lisboa. Outro parágrafos e capítulos terão de passar, até Artur Corvelo lá chegar.


domingo, 29 de setembro de 2019

Eça de Queirós, A ILUSTRA CASA DE RAMIRES (1900, póstumo)

«Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.» 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Eça de Queirós, A CIDADE E AS SERRAS (póst., 1901)

«Na estrada de Orléans, numa noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nédio senhor, a delicada senhora da casa da Avelã, o menino, marcharam três horas na chuva e na lama do exílio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos de uma taberna.» 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Eça de Queirós, A CAPITAL! (póstumo, 1925)

«O chefe da estação, um gordo com os queixos amarrados num lenço de seda preta, o bonnet  de galão sujo muito posto ao lado, apareceu então, à porta da sala de bagagens, de charuto nos dentes.» 

quarta-feira, 27 de março de 2019

Eça de Queirós, A CAPITAL! (póst., 1925)

«Na estação havia apenas um passageiro, esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão e ao lado sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro duma garrafa.»

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Eça de Queirós, S. CRISTÓVÃO (póstumo, 1911)

«E a noite cerrava-se, quando para além de uma ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento Agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do Castelo andava erguendo a S. Cosme.»   

terça-feira, 31 de julho de 2018

Eça de Queirós, O PRIMO BASÍLIO (1878)

«Era em Julho, um domingo; fazia um grande calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; havia o silêncio recolhido e sonolento de manhã de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia desejos de sestas, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao pé da água; nas duas gaiolas, entre bambinelas de cretone azulado, os canários dormiam; um zumbido monótono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das chávenas sobre o açúcar mal derretido, enchia toda a sala de um rumor dormente.»

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Eça de Queirós, A CIDADE E AS SERRAS (póstumo, 1901)


«Nas costas da Cantábria o paquete encontrou tão rijos mares que a sr.ª D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alcântara uma coroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu.»

quinta-feira, 22 de março de 2018

Eça de Queirós, OS MAIAS (1888)


«Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas.»

Eça de Queirós, O PRIMO BASÍLIO (1878)


«Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soustache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis e rubis miudinhos davam cintilações escarlates.»

quarta-feira, 21 de março de 2018

Eça de Queirós, A CIDADE E AS SERRAS (póstumo, 1901)


«No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis.»

terça-feira, 20 de março de 2018

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Camilo, o romantismo e a nova escola realista (1879)

«Se comparo o Amor de Perdição, cuja 5.ª edição me parece um êxito fenomenal e extralusitano, com O crime do Padre Amaro e O primo Basílio, confesso, voluntariamente resignado, que para o esplendor desses dois livros foi preciso que a Arte se ataviasse dos primores lavrados no transcurso de dezasseis anos. O Amor de Perdição, visto à luz eléctrica do criticismo moderno, é um romance romântico, declamatório, com bastantes aleijões líricos, e uma ideias celeradas que chegam a tocar no desaforo do sentimentalismo.. Eu não cessarei de dizer mal desta novela, que tem a brutal insolência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de Perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indemnização, faz rir; tornou-se cómico pela seriedade antiga, pelo raposinho que lhe deixou o ranço das velhas histórias do Trancoso e do padre Teodoro de Almeida.» Amor de Perdição, «Prefácio da quinta edição», 1879.