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domingo, 9 de maio de 2021

Almeida Garrett: notas avulsas



1. Garrett e este miserável país. A casa onde morreu Almeida Garrett está em risco, por abandono e especulação. Somos um país de alarves, ainda atiramos lixo pela janela do carro, não temos civilização para respeitar a memória espiritual de quem foi enorme no seu tempo, apesar de todas as humaníssimas fraquezas. Somos um país de lepes, canalha de mão estendida a quem encheram os bolsos sem antes ensinarem a mastigar de boca fechada. O resultado é esta vileza. Demolir aquilo é como arrasar a casa de Dickens em Londres, onde ele só viveu escassos meses, mas está lá, para ser visitada; é como destruir a casa de Balzac em Paris, onde o homem viveu com um nome falso, e mesmo assim não se livrava dos credores, e também lá está. Mas é pior, muito pior para nós, periféricos, provincianos, tão atrasados que até envergonha. Eles, ingleses e franceses têm tanto, e tantas casas, de Dickens, de Balzac, de Thackeray, de Hugo, de... E nós temos tão pouco... (21-III-2005)


2. O cânone poético de Cascais. Cascais passou a ser diferente quando Almeida Garrett (1799-1854) publicou Folhas Caídas (1853). O poema «Cascais», poderosa expressão lírica do romantismo, pela intemperança, volubilidade, transgressão que encerra, veio acrescentar algo ao património cultural cascaense. Não vemos Cascais do mesmo modo depois de lermos este poema, pois a nossa relação com o espaço será inevitavelmente condicionada por ele. A composição tem assim uma dimensão ontológica que altera a percepção, a vivência, em suma a sensibilidade de quantos a lêem em face duma realidade geológica com milhões de anos, até então apreendida sempre da mesma forma pelo homem -- ou, mais rigorosamente, nunca uma estesia semelhante fora manifestada e comunicada desta maneira: «Inda ali acaba a Terra, / Mas já o céu não começa; / Que aquela visão da serra / Sumiu-se na treva espessa, / E deixou nua a bruteza / Dessa agreste natureza.» (16) Garrett, foi, portanto, uma espécie de patrono literário de Cascais, um autor citado sempre que se pretendia mostrar como «estes sítios» (outro poema de Folhas Caídas sobre o espaço cascaense) haviam sido um estímulo para um grande escritor.
Em meados so século XX, o poeta moçárabe (17) Abu Zayd 'Abd ar-Rahman ibn Muqãna (al-Qabdaqi al-Lixbuni), século XI, natural do lugar de Alqabdaq, surge como autor a (re)descobrir. Para além do interesse histórico-cultural da sua poesia -- em que encontramos «uma das mais antigas referências literárias aos moinhos de vento, situados na Europa» (18) -- trata-se também de um excelente poeta do Andaluz. Com a inauguração do monumento que o evoca, da autoria do escultor António Duarte (autor também da estátua de D. Pedro I, no coração da vila), Ibn Muqãna (ou Mucana) foi talvez o primeiro poeta -- em especial com o conhecido «Poema de Alcabideche», objecto de várias versões -- a ser incorporado na bagagem cultural do grande público, mercê também das disciplinas escolares orientadas para as realidades locais que vigoram nos programas de há algumas décadas para cá.
Em meados do anos 60 Cascais tinha dois ex-libris poéticos que ultrapassavam a condição de meras referências literárias, sendo antes dois textos canónicos absolutamente definitivos e adquiridos pela população estudantil e de média formação cultural.
Notas:
(16) Almeida GARRETT, Folhas Caídas, Mem martins, Publicações Europa-América, s.d. : 56.
(17) María de Jesus RUBIERA MATA, Ibn Muqãna de Alcabideche, 2.ª edição, Cascais, Associação Cultural de Cascais, 1996 : 7-8.
(18) Fausto do Amaral de FIGUEIREDO, «Abú Zaíde Ibne Mucana», Cascais e os Seus Lugares, n.º 20, Estoril, Junta de Turismo da Costa do Sol, 1966 : 16. (19-XI-2007)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

BALZAC, de Jaime Brasil [1966]

     O arranque:«O fenómeno Balzac é um quebra-cabeças para quem conhece a vida do escritor e lhe lê as obras.» 
     Livrinho de 42+6 páginas, certamente a introdução geral à monumental edição de A Comédia Humana, que a Portugália Editora começou a publicar em 1966, sob a direcção de José da Cruz Santos. O opúsculo é uma jóia, e bem merecia uma reedição, pelo estilo sedutor de Brasil, pela sua notável concisão. A capa, com uma foto da perturbante escultura de Rodin, erigida no Père Lachaise, reenvia-me para outra excelente biografia de Jaime Brasil, sobre o artista de O Beijo, texto de maior fôlego, escrita na Paris já sob ocupação (conspirador anarquista, a fuga para Portugal, em 1941, terá como consequência a prisão, episódio de que falarei noutra altura, a propósito doutro livro).
     A dualidade homem-artista vai ocupar as primeiras páginas. O contraste entre o saco de carne, ossos e vísceras (e vícios) e o génio criador levou Brasil a escrever: « [...] O artista é um instrumento, irresponsável pela tarefa que executa. Não tem nenhum mérito em realizá-la. Obedece a um imperativo que lhe é exterior. O génio é uma excrescência no homem, como uma neoplasia.  Não se sabe de onde vem. Não é inato no indivíduo. Surge em determinado momento da vida, misteriosamente. Tem intermitências: obras geniais alternam com outras medíocres do mesmo autor.»
     Repare-se na arrumação destes períodos: frases curtas e lapidares denunciam a um tempo o jornalista experiente na comunicação com um público vasto e um autor de fortes convicções.
     Quanto à origem do génio, talvez não seja despropositado acrescentar que os indivíduos que -- ultrapassando ou não condicionalismos de partida que os destinariam à mediocridade -- se alçapremaram a uma posição única, pelo que representaram no seu tempo e que de alguma forma lograram a imortalidade, são produtos de uma aleatória transmissão genética; porém, parece pacífico que tanto a inteligência como a sensibilidade se potenciam nos primeiros anos de vida, aguardando apenas a oportunidade de eclodirem naqueles que o acaso -- biológico e biográfico -- bafejou.

     Jaime Brasil, Balzac -- Escorço da complexa personalidade do autor de A Comédia Humana, Lisboa, Portugália Editora [1966].